Excertos do livro "Instruções Espirituais — Diálogos como Motovilov", trad. de Helena Livramento
A vinda de Cristo revelada pelo Espírito Santo
Sem esse reconhecimento sempre claramente conservado no gênero humano, como teriam podido os homens saber, ao certo, que ele tinha vindo, aquele que, segundo a promessa feita a Adão e Eva, devia nascer de uma Virgem destinada a esmagar a cabeça da serpente?
Mas eis que S. Simão ao qual foi revelado, aos sessenta e cinco anos, o mistério da concepção, e do nascimento virginal de Cristo, proclamou, em voz alta no Templo, que tinha a certeza, no Espírito Santo, de ver diante dele Cristo, Salvador do mundo, cujo nascimento da Puríssima Virgem Maria e do Espírito Santo lhe havia sido predito, há trezentos anos, por um anjo (o texto é aqui tributário de uma tradição apócrifa, segundo a qual o velho Simeão teria vivido até a idade de 385 anos). E Santa Ana, a profetisa, filha de Fanuel, que desde a sua viuvez, durante oitenta e quatro anos servia no Templo, mulher cheia de graça e de sabedoria, anunciava também que estava efetivamente ali o Messias, o verdadeiro Cristo, Deus e homem, o Rei de Israel, que vinha salvar Adão e todo o gênero humano.
Renovação do "sopro de vida" perdido por Adão
Quando Nosso Senhor Jesus Cristo terminou a sua obra de salvação, ressuscitado de entre os mortos ele soprou sobre os Apóstolos, renovando o sopro de vida do qual gozava Adão e lhes restituindo a mesma graça que Adão perdera. Mas não era tudo. Disse-lhes: "Eu vos digo a verdade: é de vosso interesse que eu parta, pois se eu não for, o Paráclito não virá a vós. Mas se eu for, enviá-lo-ei a vós. Quando vier o Espírito da Verdade, ele vos conduzirá à verdade plena, pois não falará de si mesmo, mas dirá tudo o que tiver ouvido e vos anunciará as coisas futuras. Vos ensinará tudo e vos recordará tudo o que eu vos disse" (Jo 16,7.13; 14,26). Trata-se da graça que já lhes tinha prometido. "Graça sobre graça".
Pentecostes
E eis que, no dia de Pentecostes, ele lhes enviou solenemente o Espírito Santo num vento de tempestade, sob o aspecto de línguas de fogo, que pousaram sobre cada um deles e os encheram da força fulgurante da graça divina, orvalho vivificante e alegria para as almas daqueles que participam de sua potestade e dos seus efeitos.
O batismo
Esta graça fulgurante do Espírito Santo nos é conferida a todos nós, fiéis de Cristo, no sacramento do batismo. Ela é confirmada pela crisma — unção feita com o santo óleo sobre os principais membros do nosso corpo indicados pela Santa Igreja, depositária eterna dessa graça. Diz-se: "O selo do dom do Espírito Santo". Ora, sobre o que é que depositamos os nossos selos senão em recipientes cujo conteúdo é particularmente precioso? E o que há de mais precioso no mundo e de mais sagrado que os dons do Espírito Santo, enviados do alto durante o sacramento do batismo?
Esta graça batismal é tão grande, tão importante, tão vivificante para o homem que, mesmo que ele se tornasse herético, ela não lhe seria tirada até a morte, quer dizer, até o termo de sua prova temporal fixada pela Providência, a fim de lhe dar uma oportunidade de se erguer.
Se não pecarmos, permaneceremos sempre servidores de Deus, santos e imaculados, estranhos a toda a impureza do corpo e do espírito. A desgraça é que, avançando em idade, não cresçamos em sabedoria e em graça como o fazia nosso Senhor Jesus Cristo. (Lc 2,52) mas, pelo contrário, nos depravemos cada vez mais, nos tornemos, privados do Espírito Santo, grandes, abomináveis pecadores.
O arrependimento
Quando um homem, retornando à vida pela sabedoria divina sempre em busca da nossa salvação, se decide a voltar-se para Deus para escapar da perdição, deve seguir a via do arrependimento, praticar as virtudes contrárias aos pecados cometidos e esforçar-se, agindo em nome de Cristo, por adquirir o Espírito Santo que, dentro de nós, prepara o Reino celeste.
Não foi em vão que o Verbo disse: "o Reino de Deus está no meio de vós. Penetra-se nele pela violência do esforço" (Lc 17,21). Se apesar dos liames do pecado que os mantém cativos impedindo, por novas iniquidades, de se voltarem para o Salvador com perfeita contrição, os homens se esforçam por quebrar esses liames, chegarão finalmente perante a face de Deus mais brancos do que a neve, purificados por sua graça.
"Então, sim, poderemos discutir, diz Javé: mesmo que os vossos pecados sejam como escarlate, tornar-se-ão alvos como a neve" (Is 1,18). O Vidente do Apocalipse, o apóstolo São João, o Teólogo, viu tais homens vestidos de branco, purificados, tendo palmas nas mãos como sinal de vitória e cantando aleluia. Incomparável era a beleza do seu canto. O anjo do Senhor disse falando deles: "Estes são os que vêm da grande tribulação: lavaram suas vestes e alvejaram-nas no sangue do cordeiro" (Ap 7,14).
O sangue do cordeiro dado em troca do fruto da árvore da vida
"Lavado" pelo sofrimento, "alvejado", comungando nos santíssimos mistérios da Carne e do Sangue do Cordeiro Imaculado, Cristo é voluntariamente imolado ante os séculos pela salvação do mundo e ainda hoje imolado, fracionado, jamais consumido a fim de nos fazer participantes da vida eterna e nos permitir que nos justifiquemos no juízo final. Mistério dado em troca — ultrapassando todo o entendimento — desse fruto da Árvore da Vida do qual o inimigo da humanidade, Lúcifer, caído do céu, queria privar injustamente o gênero humano.
A Virgem Maria
Apesar do fato de Satã ter seduzido Eva, arrastando Adão atrás de si, Deus não somente nos deu um Redentor que pela sua morte venceu a morte, mas, na pessoa da Mulher, a Mãe de Deus, Maria sempre Virgem que esmagou nela e em todo o gênero humano a cabeça da serpente, ele nos deu uma advogada infalível junto de seu Filho e nosso Deus, uma intercessora invencível para os pecadores mais inveterados. É por isso que ela é chamada "O Flagelo dos demônios", pois é impossível ao demônio fazer perecer um homem, enquanto este não cessar de recorrer à Theotokos.